Ninguém aguenta mais a quarentena imposta pela pandemia de coronavírus. Quem pode fazer isolamento social já está há quase quatro meses praticamente olhando para as paredes. Para enfrentar essa maratona que não tem fita de chegada à vista, muita gente está flexibilizando seu confinamento e encontrando outras pessoas que também estão isoladas. Cada um na sua bolha, mas em contato para não “surtar”. A razão disso é o peso mental do isolamento. Quanto mais rigorosa a quarentena, maior o custo para o bem-estar psicológico, dizem os especialistas. A psicóloga Mary Yoko Okamoto, professora de pós-graduação na Universidade Estadual Paulista (Unesp) e uma das responsáveis pelo programa de teleacolhimento dos calouros, diz que insegurança, incerteza e medo do futuro são os sentimentos mais comuns deste período. 

Como montar sua bolha

Essas soluções individuais não são invenção nossa. Foi lá fora que surgiram os termos “bolhas” e “microbolhas sociais”. Quando começou a retomar a vida social após um enfrentamento bem-sucedido da pandemia, a Nova Zelândia recomendou que as pessoas continuassem dentro da bolha de suas casas, mas que começassem a expandi-la para se reconectar com a vida lá fora. Na Inglaterra, o governo britânico recomendou que as bolhas sociais, geralmente familiares, fizessem combinações com dois ou três outros grupos.

O psicanalista Christian Dunker afirma que nossa capacidade de suportar privações é finita. “Não somos de aço inoxidável ou de elástico. Nós estamos pagando um preço psíquico pelo isolamento. O contato com o outro representa o nosso reconhecimento. Dependemos do outro para entender melhor o que sentimos”, explica o professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).

Ampliar a bolha individual aumenta o contato social, contribui com o equilíbrio emocional e tenta minimizar o risco de transmissão da doença. Se ocorrer uma infecção, ela permanece na bolha e não será transmitida a outras pessoas. Pode ser uma saída temporária à espera da vacina ou de um remédio eficaz contra a covid-19

Não dá para comparar a situação da Nova Zelândia e do Reino Unido com a do Brasil, mas a ideia é a mesma. A decisão de encontrar alguém pessoalmente é delicada, pois a pandemia ainda não acabou por aqui. A retomada de atividades não essenciais em várias cidades, como a abertura de shoppings e academias, por exemplo, traz uma sensação de fim da pandemia. É falsa. Não acabou. 

Existem situações mais complexas para criar bolhas, além dos laços familiares, como amigos que dividem o apartamento, por exemplo. Como controlar que todos se protejam na mesma medida se os laços não são tão fortes? 

Cuidados têm de ser respeitados, alertam especialistas

Embora reconheçam o desgaste emocional causado pela quarentena, epidemiologistas e infectologistas se dividem sobre a eficácia das medidas de prevenção nos encontros presenciais. Alguns se mostram céticos quanto à ausência de beijos e abraços. Outros alertam para a possibilidade de contaminação pelo ar. Todos destacam a necessidade de disciplina para que as bolhas minimizem o risco de contágio.Desde que exista disciplina, com cuidados antes e durante o encontro, não há problema, opina a infectologista Rosana Richtmann. “É prática que, com segurança, pode garantir que as pessoas tenham algum tipo de vida social”, diz a médica do Instituto de Infectologia Emílio Ribas e do Grupo Santa Joana.

“Do ponto de vista psicológico, é compreensível que as pessoas comecem a fazer as próprias recomendações. Nós convivemos com o medo, da morte e da doença, por muito tempo e em isolamento. E os riscos vão existir sempre”, afirma a infectologista Sylvia Lemos Hinrichsen, consultora de Biossegurança e Controle de Riscos da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

Para minimizar esses riscos, Márcio Bittencourt, mestre em Saúde Pública e médico do Hospital Universitário da USP, recomenda o uso de máscaras, além da higienização das mãos. Também é necessário, completa o especialista, evitar lugares fechados, o contato prolongado e as aglomerações. O médico e professor Jean Gorinchteyn, também do Emílio Ribas, mostra ceticismo quanto à adoção das medidas. “As pessoas não vão se encontrar ao ar livre. Em geral são jantares ou almoços. Numa mesa, ninguém vai manter 2 metros de distância. Além disso, elas vão retirar as máscaras para comer. Esse é um cenário de risco”, adverte o infectologista.

Paulo Eduardo Brandão, virologista da Faculdade de Veterinária da USP, adiciona outro alerta: a possibilidade de transmissão do novo coronavírus pelo ar. Na semana passada, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou um informe científico em que passa a considerar o fato. “O vírus precisa de pessoas perto de pessoas, mas ele também se transmite pelo ar. Esse é um risco que mina a hipótese de segurança em um parque ou praia”, exemplifica. (Compacto do Estadão Digital).