“O Covid veio para escancarar como a morte social (dos idosos) é dolorosa”

Geriatra Carlos SperandioPrincipal grupo de risco da pandemia de Covid-19 a população idosa está há três meses em isolamento. Se cumpriram a orientação de não sair de casa e não receber visitas, os idosos conseguiram se proteger do coronavírus, mas podem ter descompensado o controle de outras doenças como diabetes, hipertensão, osteoporose e, principalmente, problemas psicológicos como depressão ou ansiedade. O geriatra Carlos Sperandio, que tem visitado asilos de Curitiba para atendimento domiciliar aos moradores destas instituições constata o agravamento do quadro de saúde desta população isolada.

“A gente tem vivido, no Brasil, uma morte social do idoso. Ele já é um grupo populacional marginalizado. Agora, eles estão em uma prisão domiciliar decretada pelo senso comum. Isso está sendo extremamente doloroso e vai cobrar o seu preço”, lamenta o profissional. “Já é constatado o aumento nos casos de suicídio, de depressão e ansiedade; casos de piora clínicas de pacientes que precisavam respirar o ar de fora de casa, para manter sua inteligência, sua cognição seu emocional, ou de doenças orgânicas que exigem que a pessoa se movimente; ou casos mais graves em que a pessoa precisa frequentar o hospital e está deixando de fazer por medo do Covid”, diz. “O Covid veio para escancarar como essa morte social é dolorosa”.

Ele nega, no entanto que a reabertura do comércio seja o principal fator do aumento de casos. “O problema de Curitiba não é a reabertura de shoppings e academias, por exemplo. Lá há regras e estão sendo cumpridas. Medição de temperatura, máscara, distanciamento. O problema está onde não se cumpre as regras. Aqueles vídeos de baladas com shows e as pessoas curtindo, próximas, sem máscara, é assustador. Mas a principal regra é o bom senso de cada um. Uma pessoa com sintoma não pode sair de casa – só depende do bom senso dele, é educação sanitária”, conclui.

Para o geriatra, com o aumento do conhecimento sobre as formas de transmissão do coronavírus permite se pensar numa forma de promover uma “saída segura” para o idoso ou, até, que ele receba visita. “Se a gente conseguir passar para esses idosos e seus familiares como funciona a transmissão do vírus, a gente consegue apontar uma lacuna para uma saída de casa ou uma visita bem feita. Até porque seria hipocrisia achar que as pessoas não tenham, vez ou outra, quebrado a quarentena. Estão fazendo sim e, às vezes, de modo muito inseguro”, diz.

Ele afirma ser saudável que o idoso consiga sair de casa para se exercitar e tomar sol, evitando o sedentarismo e o agravamento de doenças crônicas. “Para isso, ele deve utilizar uma das máscaras que protejam ele e não os outros. Então, idosos não devem usar máscaras de pano, mas sim as máscaras N95, que filtram até 95% dos microorganismos. Daí, pode fazer uma caminhada ao sol, sem entrar em ambientes fechado, mantendo distância de dois metros das outras pessoas, carregando álcool em gel para fazer higiene das mãos se encostar em algo e quando voltar para casa”, diz.

O médico também diz que é possível o idoso receber visita de forma segura. “Você pode visitar seu pai ou seu avô, desde que você seja uma pessoa que esteja se protegendo muito, que não esteja indo à balada, frequentando aglomerações, se expondo a contato com pessoas que você não sabe se está se cuidando. Se você está se cuidando e você vai visitar seu pais, mantendo a distância de 2 metros, deixando o sapato fora da casa deles, higienizando as mãos, utilizando a máscara mesmo dentro de casa. É uma visita segura”, explica. “Não podemos ir contra a orientação da autoridade sanitária, mas temos que ter bom senso que esses idosos estão pagando um preço muito grande por esse isolamento obrigatório. Então, com segurança, dá para fazer algo para melhorar”.

Por conta desta marginalização do idoso, o médico condena a proposta de isolamento vertical, que consiste em isolar apenas as pessoas do grupo de risco, mantendo as atividades normais dos demais.  “Não há dúvida que se fizermos esse tipo de isolamento estaremos sendo cruéis e decretando oficialmente a morte social dos idosos, que já vinham compadecendo”, diz Sperandio. “Por isso que o melhor é o caminho do meio. Manter os idosos e demais grupos de risco fechados, primeiro não impede o contágio de todos, pois muitos ou vivem com alguém ou precisam de pessoas que vão e vêm. Segundo, muitos precisam da vida em sociedade para se manter vivos, cuidando de sua estabilidade emocional e das doenças crônicas não transmissíveis”.

Isolamento respiratório e não social

Carlos Sperandio evita criticar a política de isolamento adotada pelo Paraná no início da pandemia, mas defende que, ao se conhecer melhor o vírus deve-se praticar o isolamento respiratório e não social. “A partir do momento que a gente entende que a transmissão do vírus ocorre de árvore respiratória para árvore respiratória, a gente começa a entender como é o mecanismo de contágio. A secreção de via aérea. Se você conseguir escapar de secreção de via aérea, você está ‘safo’. Então, higienizando sistematicamente as mãos, usando máscaras o tempo todo e mantendo-se a dois metros de distância de outras pessoas, estamos protegidos”, diz.

O geriatra reconhece que as medidas de isolamento adotadas em março contribuíram para o Paraná controlar a curva de contágio do vírus nos primeiros meses, mas criou-se o risco de um crescimento de casos justamente no inverno, período natural de maior ocorrência de síndromes respiratórias. “O Paraná conseguiu uma situação privilegiada com o isolamento precoce e por ser o primeiro estado a adotar o uso de máscaras. Mas era muito difícil a gente manter as pessoas em isolamento por três meses. E, agora, as pessoas não estão mais fazendo distanciamento e, sequer, usando a máscara. Estamos correndo um risco enorme, pois abrimos mão das duas principais medidas de proteção”, diz.

gazetadopovo.com.br

Tecnologia 10 X Idosos 0? Não, Sergio Serapião (Labora e Lab60+) explica

Sergio Serapião, paulista, 45 anos, CEO da Labora, foi reconhecido como um dos empreendedores sociais mais relevantes do ano de 2019 pela Ashoka,  (www.ashoka.org), organização internacional pioneira na área de responsabilidade social, que criou o termo “empreendedor social”. A Labora é a primeira startup de RH do Brasil focada no público sênior.

Na publicação “Leading Social Entrepreneurs 2019”, na qual destacou vinte e uma lideranças a nível mundial, Serapião está presente. Ele, também, é uma das mais importantes lideranças do movimento por uma longevidade com qualidade de vida e trabalho.

Na conversa virtual,  afirmou ainda a evidência  de um envelhecimento diferente do passado. “ A presença dos três atores com mais de 80 anos ( Antonio Pitanga, Rosamaria Murtinho e Stênio Garcia) mostrou, também, que o sentido de terceira idade mudou. O aposentado é quem se retira do convívio social e vai para o seu aposento e não teria nenhuma função na sociedade. E não é nada disso. Temos aqui exemplos de como é ativa essa longevidade. Quando chega o Covid, estamos todos confinados em casa e isso para fora questões que temos embaixo do tapete. O preconceito com a idade cresceu muito. Países escolhendo leito de hospital por idade. Será que o jovem tem mais direitos que o velho?”, questiona Sérgio Serapião.

“Estamos em plena revolução da longevidade e temos de nos adaptar a isso”, afirma Serapião. “Uma parte expressiva da população 60+ quer e precisa continuar ou ser reinserido no mercado de trabalho”, continua. “Por outro lado, as empresas precisam cada vez mais da criatividade madura em seus quadros, mas não sabem como lidar com isso”, conclui. É a partir dessas questões que surge a Labora, a primeira startup de RH do Brasil focada no público sênior.

Para obter sucesso na inserção do público sênior (acima dos cinquenta anos) no mercado de trabalho, a Labora desenha vagas específicas para as competências e limitações da idade, assim como acompanha os resultados tanto no âmbito dos negócios como no pessoal, levando em conta aspectos como a qualidade de vida, a remuneração e a realização dos profissionais maduros.

Thereza Christina P. Jorge

 

Brasil Idoso, uma reportagem, ganha anexo: Idosos X Covid-19

 

Publicamos aqui  o arquivo PANDEMIA do Covid-19 com 17 reportagens sobre o impacto dela sobre os idosos brasileiros. Estão copiados nele os principais artigos do blog https://www.artedeenvelhecer.com.br publicados entre fevereiro e junho de 2020. Ele também está gratuitamente disponível para cópias no link https://bit.ly/brasil_idoso_2.

O anexo Pandemia será integrado,  mais adiante, ao  e-book Brasil Idoso, uma reportagem em 21 capítulos. Ele  continua disponível no link  original: https://bit.ly/brasil_idoso. Publicado e  disponibilizado em setembro do ano passado. Foram feitas cerca de 1.100 cópias.

Resumindo:

https://bit.ly/brasil_idoso é o link do e-book Brasil Idoso, uma reportagem em 21 capítulos

https://bit.ly/brasil_idoso_2 é o link do anexo Pandemia do Covid-19 com 17 reportagens sobre o seu impacto sobre os idosos brasileiros.

Thereza Christina Pereira Jorge

 

15 de junho: sinal vermelho para Crimes contra Idosos

O Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa,15 de junho, foi instituído em 2006, pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pela Rede Internacional de Prevenção à Violência à Pessoa Idosa. Às vezes, a divulgação de números sobre a violência contra idosos parece mostrar um aumento de atos violentos. Na verdade, pode ser, ao contrário, o registro da mudança de mentalidade da sociedade. O que era “normal” passou a ser considerado crime.

No Brasil, a população passa por uma profunda mudança em suas características demográficas, principalmente com o crescimento expressivo das pessoas com mais de 60 anos – em especial do subgrupo de mais de 80 anos. Existem quase 30 milhões de pessoas idosas no país. Isso representa cerca de 13% da população, segundo dados do IBGE.

Eles têm família, moradia, assistência de amigos, mas ainda são vítimas de crimes praticados, em sua maioria, dentro de suas residências. Na semana do Idoso, a Pastoral do Idoso em Alagoas chama atenção para necessidade das denúncias contra os abusos praticados.

Os idosos continuam sendo vítimas de violência física, psicológica, financeira, abandono, negligência e sexual.

O abuso financeiro, muitas vezes acontece com a retenção do cartão do idoso. “No interior é muito comum a agiotagem, onde algumas pessoas ficam o cartão do idoso retidos em estabelecimentos para que todo mês ele possa fazer feira naquele local. Isso é crime previsto no Estatuto do Idoso”, afirmou Vieira.

De acordo com a Pastoral do Idoso, a violência mais praticada é o abuso financeiro. Na prática, a garantia para que o direito do idoso não seja violado, muitas vezes, tem sido desrespeitada por quem deveria lutar por melhoria de vida deles.

A Pastoral do Idoso salienta também que qualquer pessoa que presenciar um crime contra um idoso pode denunciar através do disque 100. Segundo o coordenador o principal denunciante, atualmente, são pessoas próximas ao idoso, mas muitas têm receio de fazer a delação por também ser próxima de outros membros da família.

“Estamos levantando essa campanha para dar maior visibilidade para questão das denúncias. É preciso que as pessoas denunciem qualquer tipo de abuso”.

Por fim, convém recomendar que, sempre que possível, todos os eventos e atividades desenvolvidas para a conscientização da violência procurem abordar a necessidade de articulação em rede para o enfrentamento do fenômeno. Sabe-se que a construção efetiva de uma rede somente pode se dar em torno de situações concretas, como é o caso da violência.

Ele envelhece bem _ Clint Eastwood, 90

Talvez o grande feito de Clinton Eastwood, (Clint) que completou ontem 90 anos, na arte como na vida, tenha sido conseguir esculpir sua face na pedra, tornar suas rugas experiências vividas no imaginário do público, como os maiores astros de antigamente – Gary Cooper, Spencer Tracy, John Wayne, James Stewart. Clint Eastwood, ou O homem que soube envelhecer. Clint casou-se quatro  vezes, e com Dina Ruiz, quando já tinha 74 anos, em 1996. Foi pai de novo quando já era avô. Tem sete filhos (mais filhas do que filhos) e uma neta.

Ganhou quatro Oscars – duas vezes melhor filme e diretor – por Os Imperdoáveis, de 1992, e Menina de Ouro, de 2005. Por mais de 20 anos sempre houve alguma indicação para Clint e seus filmes. Mas a Academia foi renitente quando ele mais merecia – Gran Torino, de 2008. Honrarias, teve de sobra. Além dos Oscars, presidiu o Festival de Cannes, recebeu o Irving Thalberg Memorial da Academia, o Life Achievemernt do American Film Institute, Globo de Ouro, etc.

Clint, graças a uma amiga da primeira mulher –  Maggie Johnson (30 anos de casados)  –,conseguiu um encontro com o produtor Robert Sparks. Conversaram brevemente no corredor da emissora. Sparks já se afastava quando se virou e perguntou qual era a altura dele: 1,93 m. Foi o que terminou pesando na contratação.O seriado Rawhide foi um sucesso. Durou oito temporadas e 215 episódios. O caubói Rowdy Yates transformou Clint num astro da telinha.

Os três filmes que fez com Sergio Leone, entre 1964 e 66 – Por Um Punhado de Dólares, Por Uns Dólares a Mais e Três Homens em Conflito/Il Buono, Il Brutto e Il Cattivo – foram decisivos para Clint. Numa época em que os mestres (John Ford, Raoul Walsh) e até os novos talentos (Sam Peckinpah) já haviam decretado o fim dos mitos em Hollywood, nenhuma surpresa que Leone tenha feito de seu “mocinho” um aventureiro com um código tão individual que o leva a abrir mão dos escrúpulos. Para completar o mau comportamento, Leone vestiu-o com sombreiro, poncho, mal barbeado e fez com que, o tempo todo, mantivesse na boca uma cigarrilha apagada (que ele odiava). Herói do “Spaghetti Western”.

Nos anos 1970, firmou a imagem de durão, sempre com o trabuco – Dirty Harry virou série, o Magnum 44 era sua marca. As feministas amavam odiá-lo. Mas o porco chauvinista tinha uma ambição. Queria tornar-se diretor, e respeitado. Dirigiu um primeiro filme (Perversa Paixão, de 1971). Dirigiu outro (Interlúdio de Amor/Breezy, de 1973). Com certeza havia ali alguma coisa. Não parou mais de dirigir. Até agora – contando com O Caso Richard Jewell –, são 41 filmes.

Compacto do Estadão

Com a morte dos idosos, 20% das famílias que sustentam, morrem com eles

Foto Carta Capital

 

Com crise econômica, aposentadorias ganharam espaço no orçamento familiar e pelo menos 10,8 milhões dependem hoje da renda de idosos para viver. A economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Ana Amélia Camarano observa que a população de 60 anos ou mais, a mais vulnerável ao novo coronavírus, tem um peso econômico significativo e que “a cada idoso que morre, mais uma família entra na pobreza”. Um estudo elaborado por ela aponta que o trabalho dos idosos, aposentadorias ou pensões  representa mais da metade de toda a renda familiar de 20,6% dos lares brasileiros.

Número de lares que dependem da renda de aposentados cresce 12% em um ano

A superdependência de pensões e aposentadorias cresce mais entre os mais pobres. De 2016 para 2017, o número de domicílios em que esses benefícios respondem por mais de 75% da renda avançou 22%, para quase 942 mil residências, entre as famílias da classe E, que ganham até R$ 625 por mês. Considerando todas as classes, a alta foi de 12%.

+ Inadimplência de idosos foi a que mais cresceu em dois anos

Esse aumento é maior para os mais pobres porque nesse grupo o desemprego e a informalidade também são maiores. E, normalmente, a renda com atividades informais é inferior a um salário mínimo, que é o parâmetro das aposentadorias e pensões. O metalúrgico aposentado Antonio Alves de Souza, por exemplo, que ajuda os três filhos desempregados, diz que a esposa faz bicos como faxineira. Antes da crise, ela chegava a ganhar cerca de R$1 mil por mês e hoje consegue tirar pouco mais de R$ 200. Isso fez crescer o peso da sua aposentadoria na renda da família.

Segundo reportagem do jornal O Globo, este tipo de dependência vem se agravando devido ao avanço da Covid-19e que, no caso e morte, as perdas são sentimentais e financeiras. “Há uma dupla perda. Primeiro a afetiva, depois a financeira. E até uma terceira, a de apoio familiar. Muitos avós e avôs cuidam das crianças. Sem creche e escolas, pode ser o único apoio para os pais que precisam trabalhar”, disse Ana Amélia.

A reportagem observa que, segundo o estudo, a renda domiciliar per capita nos domicílios em que os idosos representam mais da metade do orçamento é de R$ 1.621,80. Este valor, contudo, cai para R$ 425,54% no caso da morte dos idosos mantenedores da estrutura familiar.

Ainda conforme o estudo de Ana Amélia, existem no Brasil cerca de que há 4,3 milhões de pessoas com menos de 60 anos que dependem exclusivamente das pessoas na faixa etária acima de 60 anos. “Com certeza (a pandemia) vai aumentar a pobreza. Como a incidência da doença é alta nesses grupos, cada idoso que morre (neste segmento social) é mais uma família que entra na pobreza. São os órfãos da Covid-19”, destacou Ana Amélia.

brasil247.com. Estadão e O Globo

 

Uruguai, o país mais idoso do continente onde a Política de Cuidados é do Estado

Uruguai é o país da América do Sul com maior número de idosos e onde a Política de Cuidados é responsabilidade do Estado.
Vizinho do Brasil pemitiu funcionamento do comércio e impôs poucas restrições; mesmo assim, pesquisas apontaram que mais de 90% dos uruguaios ficaram em casa; país só teve 22 mortes até agora.

BBC.COM
Caso bem-sucedido na América Latina, Uruguai enfrenta covid-19 sem quarentena obrigatória e uso de máscaras
Vizinho do Brasil pemitiu funcionamento do comércio e impôs poucas restrições; mesmo assim, pesquisas apontaram que mais de 90% dos uruguaios ficaram em casa; país só teve 22 mortes até agora.
Vizinho do Brasil pemitiu funcionamento do comércio e impôs poucas restrições; mesmo assim, pesquisas apontaram que mais de 90% dos uruguaios ficaram em casa; país só teve 22 mortes até agora.

‘É preciso ter muito talento para envelhecer’

“Preocupa-me imenso o que vai acontecer em relação ao trabalho porque eu estou apta, a minha memória está boa. Gosto de trabalhar, quero trabalhar e preciso de trabalhar para manter este nivelzinho mais ou menos simpático
– nunca fui rica, umas vezes andei mais para cima, outras muito para baixo. Há colegas meus, e não só, a passarem mal. Falo dos músicos, dos bailarinos, das pessoas todas que vivem dos espetáculos de verão.”

“As pessoas não podem ficar completamente confinadas a casa.
Com certeza que aceito que se mantenha um certo afastamento…
Agora, ninguém sair de casa até dezembro?
Enlouquecemos todos!”

“Sinto que a minha cabeça não tem 80 anos, que a minha alma não tem 80 anos, que as minhas mãos não têm 80 anos.

Às vezes, para gerir essa décalage entre aquilo que eu sinto e aquilo que eu sou, é preciso um grande talento. É preciso ter muito talento para envelhecer.
Adoro arranjar-me, pintar o cabelo e fazer as minhas unhas de gel, que agora estão horrorosas!
No dia em que eu não fizer isso, não sou eu. Ou então estou toda velha [risos]. Não me apetece nada.”

(Simone de Oliveira, Sol, 25 de abril de 2020)

 

Do site envelhecer.pt

Estudar é preciso: Carlos Augusto, universitário, 92 anos

Carlos Augusto Manço nasceu três décadas antes da televisão chegar ao Brasil e hoje, com a pandemia, precisa se adaptar às aulas online da faculdade. Aos 92 anos e em isolamento por causa do novo coronavírus, o vovô está no terceiro ano de Arquitetura e sente falta do contato presencial com os colegas do curso, mas não se abate com os desafios da quarentena para estudar.

Mesmo com dificuldades para digitar, problemas de audição e sem costume de mexer no computador, ele se reinventa com a tecnologia para conquistar o sonho de se tornar arquiteto. “Tem horas que dá vontade de parar pelo volume de estudos, mas a vontade de continuar é maior”, diz. “Para entrar no sistema [de videoconferência], minha neta está me ensinando um pouco a cada dia.”

Morador de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, o idoso não conseguiu fazer o ensino superior na juventude por questões financeiras. “Só tinha curso profissionalizante na cidade e eu não tinha condição de estudar fora. Então, resolvi trabalhar e fazer o que estava ao meu alcance [técnico em edificações]”, explica. Por 50 anos, trabalhou com desenho urbano, ajudou a projetar as obras do hospital universitário da USP, no campus de Ribeirão, e hoje se dedica a trocar conhecimentos com seus colegas de classe, inclusive nas aulas pelo computador.

Assim como era presencialmente, Carlos está sendo um aluno exemplar. Não falta um único dia e mantém uma rotina regrada: acorda cedo para a aula, estuda no período da tarde e, mesmo acompanhando as notícias sobre a covid-19, busca tranquilizar os estudantes mais jovens com a sabedoria de quem já viu outras crises de saúde pública ao longo de quase um século de vida.

“Isso vai passar. Temos que manter a rotina em casa e deixar a mente funcionando. Quanto mais estudamos, mais temos conhecimento. Quando as aulas [presenciais] voltarem, poderemos compartilhar experiências diferentes”, afirma. A positividade se soma à esperança com o futuro: quando tudo isso acabar, ele pretende estagiar em obras de hospitais — desejo que nutre consigo há muitos anos.

Compacto do Estadão

Lya Luft, 81 anos, demasiadamente humana

 

Aos 81 anos, e tendo a sua vida marcada por inúmeras perdas familiares – dentre as quais a morte prematura do filho André, aos 51 anos, que sofreu parada cardiorrespiratória enquanto praticava surfe em Santa Catarina, em novembro de 2017, foi a mais recente, que a abalou profundamente –, a escritora gaúcha Lya Luft restabelece uma rotina, na companhia do marido Vicente, dividindo-se entre o apartamento em Porto Alegre e a residência em Gramado. Na entrevista que concedeu ao Magazine, ela avalia essa “época triste, trágica e conflitante”, e busca, por meio da escrita, dar a sua contribuição a fim de que se possa entender e, tão logo possível, superar esse momento. Em As coisas humanas, pode-se pensar (e repensar) esse humano, “demasiado humano”, como sugeria Nietszche.

“As coisas humanas”, Editora Record, (cerca de R$ 30,00) , apesar das dificuldades de sua distribuição nas livrarias, está disponível junto à editora, e nas plataformas digitais, tanto no formato de e-book quanto no exemplar físico.

A entrevista do site GAZ Magazine foi compactada aqui:

Como tens enfrentado a quarentena? Como a artista Lya enxerga esse período tão inusitado?

Lya Luft – Enfrento a quarentena com tranquilidade, como um dever natural, diante das trágicas circunstâncias mundiais, e cumpro fielmente. Mas claro que há muitos incômodos, como passar até o Dia das Mães longe dos filhos.

Esse cenário social, no País e no mundo, convida de alguma forma a criar na arte? Ou até isso fica complicado?

Época triste, trágica e conflitante. Difícil controlar as comunidades, maiores e menores, poucos países com liderança firme e clara, e tudo que é inusitado assusta. Além disso, há os que não acreditam ou diminuem a realidade. A mim esse período deixa mais paralisada do que inspirada. O mundo mudou. Como será tudo quando a doença se aquietar?

Estás lançando novo livro de crônicas. Como a obra se associa a esse contexto atual, de ameaça global à saúde?

O livro e o título estavam prontos bem antes de aparecer o vírus. Falo das coisas humanas internas, pessoais, cotidianas ou transcendentes. No fundo, meus temas de sempre.

Enquanto cronista, sempre tiveste posicionamento firme sobre o ambiente político. Como vês a atualidade em termos de lideranças públicas?

Acho de modo geral lamentáveis nossas lideranças, com exceções (a exemplo dos governadores Eduardo Leite e Wilson Witzel, do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, e de outros). Mistura-se joguinhos políticos com questões de vida ou morte. Acho isso criminoso.

Tua história de vida é marcada pela superação. Como se portar diante do ambiente de insegurança e de medo criado pela pandemia?

Todos fazemos grandes ou pequenas superações pessoais pela vida. Perdas diversas, decepções, fracassos são normais. Talvez eu tenha muito amor à vida, alguma confiança que me foi incutida desde menina. Não sei. Nada tem sido fácil. Tive sempre apoios importantes, sobretudo dos filhos e algumas amizades essenciais. Muito trabalho ajuda sempre. A pandemia nos deixa a todos inseguros, pois é uma doença nova, desconhecida, e ninguém ainda sabe o que fazer.

A arte – e, nela, a literatura – pode ajudar as pessoas a enfrentar melhor esse momento?

A arte sempre ajuda o artista, como qualquer trabalho ajuda as pessoas. Ajuda também a quem a curte, seja pela contemplação da beleza, seja pela emoção ou reflexão, seja pela distração.

Compcto da entrevista ao site GAZ