Sala de Aula: o que é Cultura do Cuidado? Ela é urgente e salva idosos

As aulas online são atrações na pandemia. Eu mesma assisto o curso sobre  História Brasil Independente com o excelente  professor Marcos Napolitano, no canal Aulas USP no YouTube. Todo dia, das 4 às 6h da tarde, sento-me diante da TV com um caderno e uma caneta para as anotações. São aulas incríveis e estou aprendendo muito.

A deputada federal Leandre (PV-PR) afirmou recentemente a um jornal paranaense que muitas vidas seriam poupadas se o projeto de lei de sua autoria tivesse urgência na agenda da Câmara dos Deputados: o projeto  5791/19 que  institui a Política Nacional do Cuidado.  Segundo ela, a Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa (Cidoso) lutou pela urgência durante todo ano passado.

O ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), defendeu ontem, 13, que, diante da pandemia do novo coronavírus, a humanidade precisa repensar a pedagogia da solidariedade, como a cultura do cuidado com os idosos e mais carentes.

Por meio de videoconferência, o ministro proferiu a palestra “Globalização da crise humanitária”, no seminário virtual “Covid-19: Embates Globais”, promovido pelo Laboratório de Inovação do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), sediado em Porto Alegre (RS). Segundo ele, a pandemia é, por definição, um problema global, que carrega uma dimensão de transterritorialidade. “A omissão ou qualquer ação irresponsável de um Estado traz consequência para os demais”, destacou. 

Brasil

Cuidar de pessoas idosas é uma realidade cada vez mais presente nos domicílios brasileiros. Cuidado  em Domicílio e Atenção Domiciliar, embora pareçam a mesma coisa, não são! Quando falamos em cuidado no domicílio, estamos nos referindo a todas as práticas de atenção e suporte às necessidades das pessoas idosas dentro de suas residências e que são realizadas por parentes, amigos ou “cuidadores”. 

Já a Atenção Domiciliar é uma modalidade de atendimento dentro da Política de Saúde, por meio do Sistema Único de Saúde e possui diretrizes para seu funcionamento. Segundo a Portaria no. 963, de 27 de maio de 2013, a Atenção Domiciliar constitui-se como uma: “… nova modalidade de atenção à saúde, substitutiva ou complementar às já existentes, caracterizada por um conjunto de ações de promoção à saúde, prevenção e tratamento de doenças e reabilitação prestadas em domicílio, com garantia de continuidade de cuidados e integrada às redes de atenção à saúde.”

De acordo com o grau de dependência, é que as exigências de cuidado vão se moldando. No cuidado domiciliar existem questões que devem ser observadas com cautela, tendo em vista as múltiplas necessidades que uma pessoa idosa apresenta. Dentre os aspectos centrais do cuidado, os que geram um maior número de dúvidas ou problemas têm relação com a higiene, medicação e segurança. 

Diante dos nossos recursos e do adiantado envelhecimento da população brasileira, a solução mais próxima para o problema é  segundo o médico Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil (ILC-BR) aprender e prarticar a nível individual e social  a Cultura do Cuidado como uma resposta à revolução da Longevidade que experimentamos. Como ele mesmo diz, “longevidade sem qualidade de vida é prêmio envenenado.”

 Uruguai

Hoje, o Uruguai é o país mais envelhecido da América Latina. Essa situação traz desafios para o governo, principalmente no que diz respeito aos sistemas previdenciário e de saúde, uma vez que o envelhecimento implica em menos pessoas em idade ativa. Buscando uma solução, instituiu-se no país a Lei Federal nº 19.353, que cria o Sistema Nacional Integrado de Cuidados, com um enfoque especial para a população idosa.

O papel é identificar elementos de desamparo a direitos e falta de bem-estar, que devem ser solucionados com uma agenda de cuidados, buscando saná-los efetivamente. Isso inclui uma maior atenção aos centros de estadia para idosos, promoção de oficinas sobre envelhecimento e senilidade, fiscalizações sanitárias, capacitações de profissionais, dentre outras atividades.

Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa

Praça dos Três Poderes, Câmara dos Deputados

Anexo II, Pavimento Superior, Ala B, Sala 154

Brasília – DF – CEP: 70160-900

Telefones: 55 (61) 3216-6958/-6952/-6954/-6955/-6957/-6958/-6959

E-mail: cidoso.decom@camara.leg.br

 

Thereza Christina Jorge

Bach, obras completas para “tempestades perfeitas”

Estudiosos costumam adjetivar o momento brasileiro com a palavra crise. O economista brasileiro e norte-americano (*)Armínio Fraga,  qualificou este momento como “a tempestade perfeita”. Gostei. Parece adequado com o cenário desses meses. Recebi pelo e-mail este link cm as obras completas do compositor Johann Sebastian Bach. Não precisa entender inglês. É uma apresentação das composicões em partes. Oa links foram disponibilizados no site abaixo:

Sugestão: baixe as composicões menores, inicialmente.

Complete works organized into groups for download. (Individual works may be downloaded via the catalog or search pages.) The links below are to .zip archives. After downloading, uncompress the file(s) and import the folder of audio files into iTunes or a similar application.

Trabalhos completos organizados em grupos para download. (Trabalhos individuais podem ser baixados no catálogo ou nas páginas de pesquisa.) Os links abaixo são para arquivos .zip. Após o download, descompacte o (s) arquivo (s) e importe a pasta dos arquivos de áudio para o iTunes ou um aplicativo similar.

 

Veranópolis (RS), uma utopia na prática

Veranópolis, no sul do Rio Grande do Sul,  divulga balanço de ações sociais em tempos de pandemia. Ela é uma das seis (*) cidades brasileiras com o certificado da Organização Mundial de Saúde (OMS) “Cidade Amiga do Idoso”. É também considerada a capital brasileira da longevidade e a terceira cidade com maior longevidade média da população no mundo.

Diante da atual situação de pandemia causada pela disseminação do novo coronavírus, a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social, Habitação e Longevidade não mediu esforços no enfrentamento das dificuldades ocasionadas no âmbito social. Com apoio da Gestão Municipal, demais Secretarias, empresas locais, entidades parceiras e comunidade em geral, foi possível, até o momento, garantir melhores condições às famílias em vulnerabilidade social.

Foram recebidas diversas doações de cestas básicas, lanches, cestas de pães, bolos, ovos de páscoa e bombons. Também foram recebidos itens de higiene e limpeza, medicações, fraldas geriátricas e infantis, roupas, agasalhos, cobertores, edredons e botijões de gás.

Neste momento, cabe a todos uma reflexão de como é possível superar as dificuldades, organizando juntos estratégias de enfrentamento das vulnerabilidades e construindo alternativas de superação.

Por isso, a Secretaria agradece a todos os envolvidos, o trabalho e dedicação diário da equipe, as doações recebidas e as que chegam diariamente, as parcerias construídas, os espaços de mídia e comunicação local e, principalmente, toda comunidade, que representou uma força singular de união e empatia.

 Resiliência aos desastres

O Projeto Veranópolis Cidade Resiliente”é ancorado na perspectiva das Nações Unidas para a Redução do Risco de Desastres, seja natural, econômico, sanitário, tecnológico, entre outros. O Projeto visa uma eficiência administrativa para a redução de vulnerabilidades, com a inserção de todos os atores sociais, o qual fortalece a Governança e a Democracia Participativa

Diante da atual situação de pandemia causada pela disseminação do novo coronavírus, cabe à reflexão de como superar as dificuldades, organizar estratégias de enfrentamento das vulnerabilidades e construir alternativas de superação. Desse modo, o Projeto Veranópolis Cidade Resiliente tem por objetivo tornar a comunidade Veranense com melhor capacidade de adaptação, superação e fortalecimento frente a uma adversidade.

O ponto de partida foi iniciado. Após a assinatura da carta-compromisso, em fevereiro de 2020, no mês de abril foi recebido o certificado de Município engajado. O “Projeto Veranópolis Cidade Resiliente” está finalizado, aguardando o momento para ser apresentado à comunidade. O próximo passo será o desenvolvimento do Plano de Ação.

No Certificado de Compromisso com a Resiliência aos Desastres, destacam-se Dez Passos Essenciais para a Construção de Cidades Resilientes:

Passo 1: Quadro Institucional e Administrativo; Passo 2: Recursos e Financiamento; Passo 3: Avaliações de Risco e Ameaças Múltiplas – Conheça seu Risco;

Passo 4: Proteção, Melhoria e Resiliência de Infraestrutura; Passo 5: Proteção de Serviços Essenciais: Educação e Saúde;

Passo 6: Construção de Regulamentos e Planos de Uso e Ocupação do Solo; Passo 7: Treinamento, Educação e Sensibilização Pública;

Passo 8: Proteção Ambiental e Fortalecimento dos Ecossistemas;Passo 9: Preparação, Sistemas de Alerta e Alarme, e Respostas Efetivos; Passo 10: Recuperação e Reconstrução de Comunidades.

 

Con informacões da Prefeitura Municipal de Veranópolis, da Rádio Studio Online, Portal do Envelhecimento.

(*)Seis cidades brasileiras já receberam da Organização Mundial da Saúde (OMS) a certificação internacional de Cidade e Comunidades Amigáveis à Pessoa Idosa. São elas: Porto Alegre, Esteio e Veranópolis, no Rio Grande do Sul; Pato Branco, no Paraná; Balneário Camboriú, Santa Catarina; Jaguariúna, São Paulo – municípios em que as autoridades políticas locais firmaram um compromisso para desenvolver um plano de ação voltado à adaptação da cidade para as necessidades das pessoas idosas, tendo como ponto de referência o Guia Global: Cidade Amiga do Idoso, da Organização Mundial da Saúde (OMS).

 

Financial Times: “Como Portugal remou contra a maré que afogou Espanha”

Gripe Espanhola: hospital de campanha nos EUA

As autoridades sanitárias portuguesas têm sido bastante elogiadas pela forma como responderam à pandemia da Covid-19, numa altura em que Espanha e Itália, os seus vizinhos do sul europeu, eram assolados por muitos casos e óbitos diários. Agora, o “Financial Times” (FT) explica como a ação rápida das autoridades governativas e sanitárias acabou por minimizar os efeitos da pandemia em Portugal.

“Com a sua população em envelhecimento rápido e uma sociedade familiar unida, Portugal tem muito em comum com a vizinha Espanha”, afirma o ‘FT’, assumindo o contraste entre Portugal e Espanha durante a luta contra a pandemia devido às baixas taxas de infeção de mortalidade do nosso país.

Com Espanha a registar mais de 25 mil mortes devido ao novo coronavírus, Portugal soma 1.063 óbitos, tendo um quarto do total da sua população. Ainda assim o jornal de economia britânico destaca uma das maiores preocupações do Governo de António Costa: que uma segunda vaga de infeções reverta “o sucesso atribuído à sua resposta rápida, testes extensivos, políticas de coligação e forte apoio social”.

O responsável do gabinete de patologia viral do Instituto de Medicina Molecular, Pedro Simas, disse ao FT que “o tempo é tudo nos estágios iniciais de uma pandemia porque a disseminação é exponencial”, acrescentando que “apenas uma semana faz um enorme impacto”.

Realça o FT que Portugal quase esteve de mãos dadas com a Organização Mundial da Saúde, uma vez que a OMS declarou a Covid-19 como pandemia a 11 de março e Portugal emitiu Estado de Emergência com começo a 19 de março, encerrando todas as fronteiras.

Os dois primeiros casos em Portugal foram detetados a 2 de março, um mês mais tarde que Itália e Espanha, mas o país anunciou as medidas de restrições poucos dias depois do surto começar enquanto Espanha demorou seis semanas a intensificar as restrições depois do primeiro caso aparecer no país, quando já somava 200 mortes e quase seis mil casos.

Ainda assim, um dos maiores elogios do ‘Financial Times’ foi aos portugueses, uma vez que “muitos escolheram ficar em casa antes do Governo decretar o confinamento”. “As pessoas estavam a testemunhar imagens desoladoras de Itália e Espanha e decidiram tomar as suas próprias decisões”, disse responsável de saúde pública da Universidade Católica de Lisboa, Ricardo Baptista Leite, denunciando a medida dos portugueses como “um elemento crítico na nossa resposta” enquanto país.

Outro efeito chave destacado pelo FT foi a realização massiva de testes, com mais de 350 mil testes de despiste realizados desde o início da pandemia, com uma capacidade “firme” de 15 mil testes diários. Numa rápida equação, “isso equivale a mais de 35 mil testes por um milhão de habitantes, proporcionalmente maior do que muitos países europeus”, defende a publicação, sustentando a concentração de testes nos profissionais de saúde e lares de idosos no país.

jornaleconomico.sapo.pt

BPC, um veto a ser revisto?

LEI Nº 13.982, DE 2 DE ABRIL DE 2020

Altera a Lei nº 8.742, de 7 de dezembro de 1993, para dispor sobre parâmetros adicionais de caracterização da situação de vulnerabilidade social para fins de elegibilidade ao benefício de prestação continuada (BPC), e estabelece medidas excepcionais de proteção social a serem adotadas durante o período de enfrentamento da emergência de saúde pública de importância internacional decorrente do coronavírus (Covid-19) responsável pelo surto de 2019, a que se refere a Lei nº 13.979, de 6 de fevereiro de 2020.

O P R E S I D E N T E D A R E P Ú B L I C A

Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1º A Lei nº 8.742, de 7 de dezembro de 1993, passa a vigorar com as seguintes alterações:

“Art. 20. ………………………………………………………………………………………………..

………………………………………………………………………………………………………………………..

§ 3º Considera-se incapaz de prover a manutenção da pessoa com deficiência ou idosa a família cuja renda mensalper capitaseja:

I – igual ou inferior a 1/4 (um quarto) do salário-mínimo, até 31 de dezembro de 2020;

II – (VETADO).

………………………………………………………………………………………………………….

§ 14. O benefício de prestação continuada ou o benefício previdenciário no valor de até 1 (um) salário-mínimo concedido a idoso acima de 65 (sessenta e cinco) anos de idade ou pessoa com deficiência não será computado, para fins de concessão do benefício de prestação continuada a outro idoso ou pessoa com deficiência da mesma família, no cálculo da renda a que se refere o § 3º deste artigo.

§ 15. O benefício de prestação continuada será devido a mais de um membro da mesma família enquanto atendidos os requisitos exigidos nesta Lei.” (NR)

“Art. 20-A. Em razão do estado de calamidade pública reconhecido pelo Decreto Legislativo nº 6, de 20 de março de 2020, e da emergência de saúde pública de importância internacional decorrente do coronavírus (Covid-19), o critério de aferição da renda familiar mensal per capita previsto no inciso I do § 3º do art. 20 poderá ser ampliado para até 1/2 (meio) salário-mínimo.

§ 1º A ampliação de que trata o caput correrá na forma de escalas graduais, definidas em regulamento, de acordo com os seguintes fatores, combinados entre si ou isoladamente:

I – o grau da deficiência;

II – a dependência de terceiros para o desempenho de atividades básicas da vida diária;

III – as circunstâncias pessoais e ambientais e os fatores socioeconômicos e familiares que podem reduzir a funcionalidade e a plena participação social da pessoa com deficiência candidata ou do idoso;

IV – o comprometimento do orçamento do núcleo familiar de que trata o § 3º do art. 20 exclusivamente com gastos com tratamentos de saúde, médicos, fraldas, alimentos especiais e medicamentos do idoso ou da pessoa com deficiência não disponibilizados gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), ou com serviços não prestados pelo Serviço Único de Assistência Social (Suas), desde que comprovadamente necessários à preservação da saúde e da vida.

§ 2º O grau da deficiência e o nível de perda de autonomia, representado pela dependência de terceiros para o desempenho de atividades básicas da vida diária, de que tratam, respectivamente, os incisos I e II do § 1º deste artigo, serão aferidos, para a pessoa com deficiência, por meio de índices e instrumentos de avaliação funcional a serem desenvolvidos e adaptados para a realidade brasileira, observados os termos dos §§ 1º e 2º do art. 2º da Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015.

§ 3º As circunstâncias pessoais e ambientais e os fatores socioeconômicos de que trata o inciso III do § 1º deste artigo levarão em consideração, observado o disposto nos §§ 1º e 2º do art. 2º da Lei nº 13.146, de 2015, entre outros aspectos:

I – o grau de instrução e o nível educacional e cultural do candidato ao benefício;

II – a acessibilidade e a adequação do local de residência à limitação funcional, as condições de moradia e habitabilidade, o saneamento básico e o entorno familiar e domiciliar;

III – a existência e a disponibilidade de transporte público e de serviços públicos de saúde e de assistência social no local de residência do candidato ao benefício;

IV – a dependência do candidato ao benefício em relação ao uso de tecnologias assistivas; e

V – o número de pessoas que convivem com o candidato ao benefício e a coabitação com outro idoso ou pessoa com deficiência dependente de terceiros para o desempenho de atividades básicas da vida diária.

§ 4º O valor referente ao comprometimento do orçamento do núcleo familiar com gastos com tratamentos de saúde, médicos, fraldas, alimentos especiais e medicamentos do idoso ou da pessoa com deficiência, de que trata o inciso IV do § 1º deste artigo, será definido pelo Instituto Nacional do Seguro Social, a partir de valores médios dos gastos realizados pelas famílias exclusivamente com essas finalidades, conforme critérios definidos em regulamento, facultada ao interessado a possibilidade de comprovação, nos termos do referido regulamento, de que os gastos efetivos ultrapassam os valores médios.”

 

Covid-19: “Adeus, Bônus Demográfico”

A transição demográfica é o fenômeno de comportamento de massa mais importante da história da humanidade

A pandemia da covid-19 vai ter um impacto profundo no mundo, tanto em termos de morbimortalidade, quanto em termos econômicos. Contudo, por maior que seja o impacto em número de vítimas fatais, o surto pandêmico será incapaz de alterar a transição demográfica brasileira de longo prazo. Ou seja, a queda nas taxas brutas de natalidade e mortalidade vão continuar e a estrutura etária vai manter o ritmo de envelhecimento.

Todavia, a pandemia pode jogar a pá de cal na possibilidade de aproveitamento do bônus demográfico e, desta forma, pode inviabilizar a decolagem do desenvolvimento humano do país e o Brasil pode ter que abandonar o sonho de se tornar uma nação próspera e feliz.

O Brasil passou pelo fenômeno da transição demográfica (queda das altas taxas de mortalidade e natalidade), fundamentalmente, no século XX, e, em consequência, vai ter uma grande transição da estrutura etária no século XXI. A configuração demográfica do país no atual século será totalmente diferente dos primeiros 500 anos de história do país.

A Divisão de População da ONU divulgou, em junho de 2019, as novas projeções populacionais para todos os países, para as regiões e para o total mundial. E no final do ano divulgou os novos gráficos sobre o perfil demográfico dos países. As figuras abaixo mostram as pirâmides populacionais do Brasil em três momentos.

Em 1950, a população brasileira era de 53,9 milhões de habitantes, sendo 26,7 milhões de homens e 27,2 milhões de mulheres (meio milhão a mais de mulheres). A estrutura etária era jovem (alta proporção de crianças e adolescentes e baixíssima proporção de idosos) e a idade mediana era de apenas 19,2 anos (metade da população estava abaixo de 19,2 anos). Este tipo de pirâmide refletia a realidade dos primeiros 450 anos da demografia brasileira.

Em meados do século XX, o Brasil tinha altas taxas de mortalidade e natalidade, uma estrutura etária muito rejuvenescida e altas taxas de crescimento natural. No final do século XXI, o Brasil terá baixas taxas de mortalidade e natalidade, uma estrutura etária muito envelhecida e decrescimento populacional.

Atualmente, em 2020, o Brasil tem a melhor configuração demográfica de sua estrutura etária, pois tem as razões de dependência mais baixas da história (passada e futura). Ou seja, a proporção de pessoas dependentes (crianças e idosos) é menor dos 520 anos da história brasileira e será menor em relação ao futuro, pois ela já começou a subir e vai se elevar bastante com o processo de envelhecimento. Isto quer dizer que o Brasil está no melhor momento do bônus demográfico.

Esta nova configuração demográfica exigiria que as políticas econômicas e sociais se adaptem à nova realidade populacional, fortalecendo as políticas de educação e emprego. Infelizmente a crise econômica que começou em 2014 já estava fazendo o Brasil desperdiçar este momento histórico e que é fundamental para qualquer nação que queira dar um salto de qualidade de vida para a sua população. Só é possível um país enriquecer (ter alto IDH) antes de envelhecer.

Mas com toda a crise econômica e no mercado de trabalho que acontece depois da eclosão do coronavírus, o desafio de aproveitar os momentos favoráveis da estrutura etária parece um sonho cada vez mais distante. O FMI, no relatório divulgado em abril, estimou que o mundo vai ter a maior depressão econômica da história do capitalismo e o Brasil vai ter a sua pior recessão anual da história em 2020.

Assim, neste quadro econômico que já era muito complexo, a covid-19 chegou ao país em um momento de muita instabilidade política e, tudo indica, terá um impacto mortal sobre a economia brasileira, fazendo com que o Brasil desperdice de vez a sua chance de aproveitar o bônus demográfico e de dar um salto na qualidade de vida da população brasileira.

José Eustáquio Diniz Alves
Colunista do EcoDebate

Extraído do artigo “O perfil demográfico do Brasil até 2100 e os desafios da covid-19” para o site EcoDebate

Pandemia: ‘Brasil vai pagar o preço da desigualdade’

 

BBC News Brasil – Tem alguma coisa que o senhor gostaria de destacar como prioridade? 

Drauzio Varella – Olha, eu acho que nesse momento a gente tem que dar uma importância muito grande às máscaras. As crianças têm que usar máscaras. porque ensinando as crianças nós vamos ensinar os adultos. Não foi assim com o cinto de segurança? A criança entrava no carro, puxava o cinto de segurança e olhava para o pai: pai, põe o cinto. O pai ficava sem graça de o filho pequeno estar mandando ele colocar o cinto e passou a usar o cinto Foi assim com o cigarro também, não foi? Ensina as crianças que não pode fumar, que você vai morrer, vai ter doenças graves, a criança chegava em casa ô pai, você vai morrer, para de fumar, eu não quero ficar sem você. Um estímulo forte, uma criança que diz uma coisa dessas. A mesma coisa tem que ser com as máscaras. Nós não temos dinheiro, não encontramos máscara no mercado, faz em casa.

BBC News Brasil – E é uma coisa que vamos ter que usar por muito tempo?

Varella – Muito tempo. Porque esse vírus vai ficar um bom tempo entre nós. Não com essas características que está tendo agora, promovendo essa mortalidade absurda, mas ele vai levar muito tempo para desaparecer do contato com a humanidade.

BBC News Brasil – Desde o começo da pandemia os representantes das favelas têm batido muito na tecla de que é preciso ter um plano específico para as favelas. E até agora eles reclamam que não houve medida direcionada a essas localidades. O senhor acha que medidas específicas são necessárias?’

Varella – Eu acho que sim. Há iniciativas, o que não há são iniciativas que partam de órgãos governamentais direcionadas a esse público. Eu tenho confiado mais até na organização que eles estabelecem. Você vê Paraisópolis, em São Paulo, que é um exemplo maravilhoso. Puseram praticamente um inspetor ou inspetora em cada quarteirão da favela para fazer esse monitoramento. A própria sociedade tem condições de se articular. O que as autoridades têm que fazer é ter planos diretivos, que apontem o que a gente pretende com esse determinado plano.

Esse pessoal que diz que não, ‘vamos fazer as crianças voltarem para a escola, os jovens que não vão ter doença grave podem se movimentar na cidade’. Primeiro: isso não foi feito em lugar nenhum do mundo, esse chamado isolamento vertical: separa os mais velhos, os frágeis, e deixa os mais jovens irem ao trabalho. Não foi feito em lugar nenhum por alguma razão, não é verdade? A Europa inteira, todos os países desenvolvidos, inclusive nos EUA em que o governo federal de início foi contra, acabaram forçados pelas circunstâncias a adotar o isolamento.

Não há prova de que esse isolamento funcione, e provavelmente não vai funcionar mesmo, porque você pode ser jovem mas os brasileiros são gregários, moram muito próximos, você pode pegar o vírus na rua e trazer para a sua casa. Nesse momento o que nós sabemos fazer é isolar. Aí as pessoas dizem: vai dar uma crise econômica. A crise econômica já está estabelecida. Quando você tem uma epidemia desse jeito, se você deixar as pessoas saírem, se infectarem pela rua, à vontade, a crise econômica vai acontecer da mesma maneira. Isso é irreversível. Nós vamos ter a crise. O que os médicos defendem, e muitos economistas defendem: a crise nós vamos enfrentar de qualquer 

BBC News Brasil – O SUS é um ponto forte do Brasil, temos um sistema de saúde gratuito. O que o senhor diria que são os maiores gargalos?

Varella – É a desigualdade. O SUS é o maior programa de saúde pública do mundo. Os brasileiros desvalorizam o SUS. Quando eu vejo os ingleses, que põem aquela sigla NHS (National Health Service, sistema nacional de saúde em tradução livre) em tudo que é lugar, o NHS deles é uma brincadeira perto do SUS. Tem dinheiro, uma população de alto nível educacional, um país com 66 milhões de habitantes. Quero ver você dar saúde gratuita para 209 milhões em um país desigual e pobre como o nosso. Quero ver.

Imagina se nesse momento nós não tivéssemos o SUS. Então você tem um bom seguro saúde, te dá acesso aos melhores hospitais, ótimo, você pode ficar tranquila. Não, não pode. Por quê? Porque pode acontecer de o hospital maravilhoso ao qual você tem direito não tenha vaga para você. Olha o que está acontecendo nos EUA. Por que estão morrendo muito mais negros lá do que brancos? Porque os negros são mais pobres. E eles evitam ir para o hospital porque eles sabem que isso pode ser a falência da família inteira, porque não tem SUS. Você vai ter que pagar pelo menos uma parte do atendimento que ele vai receber. E ele no fim diz bom, eu vou morrer no hospital e deixar minha família endividada? Então ele segura, só vai em última consequência, como último recurso.

O SUS, na verdade, é um sistema perfeito. O problema qual foi, desde sempre? A falta de recursos. O governo federal vem há anos diminuindo sua participação no SUS. Teoricamente teria que cobrir 50% dos gastos do SUS, os municípios 25% e o Estado outros 25%. O governo federal vem diminuindo e está dando agora cerca de 44%. E os municípios, porque o prefeito está em contato com outros prefeitos, estão elevando o investimento no SUS e não têm tantos recursos. Mantivemos o SUS com problema de baixo financiamento e má gestão.

Por que o Brasil chegou nessa situação? Nos últimos dez anos, nós tivemos 13 ministros da Saúde. A média de permanência no cargo foi de dez meses, porque o Ministério da Saúde foi usado como troca política, o partido tal, para apoiar o governo, quer o Ministério da Saúde, dá para ele. O que você faz em dez meses em um país desse tamanho? O ministério tem um corpo técnico muito bom, com gente preparada que é o que tem segurado nessa questão política toda. Agora temos que nos organizar muito depressa e isso é problema.

BBC News Brasil – O senhor tem algum cuidado com a sua saúde mental? Alguma rotina nesse sentido?

Varella – Olha, para meditação não tenho essa sabedoria (risos). Porque se eu parar e ficar meditando eu só vou pensar nos problemas, onde está agora, estou preocupado com o Amapá, lá não tem estrutura, não tem UTI. Aí não dá certo para mim não. O que eu tento fazer é estudar, acompanhar bem o que está acontecendo.

Pela primeira vez na vida, acho que eu parei de estudar oncologia, que é minha especialidade, e estou estudando só a epidemia. Eu às vezes leio alguma coisinha de oncologia, mas não consigo manter a atenção por muito tempo. Eu procuro ler bastante, vejo tudo o que está sendo publicado nas revistas internacionais, que agora abriram, você não precisa mais ser assinante da revista em tudo o que se refere ao coronavírus.

E eu procuro me manter calmo em relação a isso, escrever um pouco nos intervalos. E agir, da forma que eu consigo interferir, isolado desse jeito.

BBC News Brasil – O senhor acha que com esse problema evidenciado na quarentena, quando a pandemia passar, o senhor acha que, do ponto de vista de sociedade vai mudar alguma coisa? Como isso vai influenciar a sociedade?

Varella – Acho que sim, acho que vamos sair dessa experiência de maneira diferente. Acho que o sofrimento é uma pressão para o aprendizado. Todos nós vamos perder amigos, muitos vão perder pessoas da família, e isso vai nos ensinar que não é possível viver como nós vivíamos até aqui.

Você vê, anos atrás, nós decidimos sediar a Copa do Mundo e a Olimpíada no Brasil. Bonito, né. Daí construímos esses elefantes brancos que hoje são um problema para os governos estaduais, que os mantêm com dificuldade. Na época a gente dizia pô, mas esse dinheiro tem que ir para saúde, educação, não tem sentido fazer estádios. E o que eles diziam? Que nós éramos parte da elite, que queria negar aos pobres as alegrias do futebol. Muito bom. Agora estamos pegando esses estádios e transformando em quê? Em hospitais.

Essa irresponsabilidade social que nós temos tido no decorrer de tantos anos está nos levando a uma situação muito difícil agora, e isso vai deixar um aprendizado. Primeiro: o SUS nunca mais vai ser o mesmo, porque nós agora estamos conscientes da importância dele. Há quanto tempo a gente escreve e fala que o SUS é fundamental. Eu sempre cito uma frase do Gonzalo Vecina Neto (ex-presidente da Anvisa), que é um sanitarista muito respeitado por todos nós, que é; sem o SUS, é o caos. Imagina agora o que seria se não tivéssemos o SUS?

Não pode ser relegado a terceiro, quarto plano nas preocupações governamentais. Ele tem que ter prioridade. A saúde tem que ter prioridade porque nós não vamos conseguir construir um país civilizado com esse desnível de acesso, onde alguns têm acesso à melhor tecnologia, aos melhores médicos, aos melhores hospitais, e outros ficam relegados ao que é possível dar para eles. E o que é possível dar para eles não é grande coisa, porque o investimento é pequeno e a gestão é precária. Eu acho que vamos sair disso diferentes.

BBC News Brasil – Tem alguma coisa que o senhor gostaria de destacar como prioridade? 

Varella – Olha, eu acho que nesse momento a gente tem que dar uma importância muito grande às máscaras. As crianças têm que usar máscaras. porque ensinando as crianças nós vamos ensinar os adultos. Não foi assim com o cinto de segurança? A criança entrava no carro, puxava o cinto de segurança e olhava para o pai: pai, põe o cinto. O pai ficava sem graça de o filho pequeno estar mandando ele colocar o cinto e passou a usar o cinto Foi assim com o cigarro também, não foi? Ensina as crianças que não pode fumar, que você vai morrer, vai ter doenças graves, a criança chegava em casa ô pai, você vai morrer, para de fumar, eu não quero ficar sem você. Um estímulo forte, uma criança que diz uma coisa dessas. A mesma coisa tem que ser com as máscaras. Nós não temos dinheiro, não encontramos máscara no mercado, faz em casa.

BBC News Brasil – E é uma coisa que vamos ter que usar por muito tempo?

Varella – Muito tempo. Porque esse vírus vai ficar um bom tempo entre nós. Não com essas características que está tendo agora, promovendo essa mortalidade absurda, mas ele vai levar muito tempo para desaparecer do contato com a humanidade.

BBC News Brasil – Desde o começo da pandemia os representantes das favelas têm batido muito na tecla de que é preciso ter um plano específico para as favelas. E até agora eles reclamam que não houve medida direcionada a essas localidades. O senhor acha que medidas específicas são necessárias?’

Varella – Eu acho que sim. Há iniciativas, o que não há são iniciativas que partam de órgãos governamentais direcionadas a esse público. Eu tenho confiado mais até na organização que eles estabelecem. Você vê Paraisópolis, em São Paulo, que é um exemplo maravilhoso. Puseram praticamente um inspetor ou inspetora em cada quarteirão da favela para fazer esse monitoramento. A própria sociedade tem condições de se articular. O que as autoridades têm que fazer é ter planos diretivos, que apontem o que a gente pretende com esse determinado plano.

Esse pessoal que diz que não, ‘vamos fazer as crianças voltarem para a escola, os jovens que não vão ter doença grave podem se movimentar na cidade’. Primeiro: isso não foi feito em lugar nenhum do mundo, esse chamado isolamento vertical: separa os mais velhos, os frágeis, e deixa os mais jovens irem ao trabalho. Não foi feito em lugar nenhum por alguma razão, não é verdade? A Europa inteira, todos os países desenvolvidos, inclusive nos EUA em que o governo federal de início foi contra, acabaram forçados pelas circunstâncias a adotar o isolamento.

Não há prova de que esse isolamento funcione, e provavelmente não vai funcionar mesmo, porque você pode ser jovem mas os brasileiros são gregários, moram muito próximos, você pode pegar o vírus na rua e trazer para a sua casa. Nesse momento o que nós sabemos fazer é isolar. Aí as pessoas dizem: vai dar uma crise econômica. A crise econômica já está estabelecida. Quando você tem uma epidemia desse jeito, se você deixar as pessoas saírem, se infectarem pela rua, à vontade, a crise econômica vai acontecer da mesma maneira. Isso é irreversível. Nós vamos ter a crise. O que os médicos defendem, e muitos economistas defendem: a crise nós vamos enfrentar de qualquer 

BBC News Brasil – O SUS é um ponto forte do Brasil, temos um sistema de saúde gratuito. O que o senhor diria que são os maiores gargalos?

Varella – É a desigualdade. O SUS é o maior programa de saúde pública do mundo. Os brasileiros desvalorizam o SUS. Quando eu vejo os ingleses, que põem aquela sigla NHS (National Health Service, sistema nacional de saúde em tradução livre) em tudo que é lugar, o NHS deles é uma brincadeira perto do SUS. Tem dinheiro, uma população de alto nível educacional, um país com 66 milhões de habitantes. Quero ver você dar saúde gratuita para 209 milhões em um país desigual e pobre como o nosso. Quero ver.

Imagina se nesse momento nós não tivéssemos o SUS. Então você tem um bom seguro saúde, te dá acesso aos melhores hospitais, ótimo, você pode ficar tranquila. Não, não pode. Por quê? Porque pode acontecer de o hospital maravilhoso ao qual você tem direito não tenha vaga para você. Olha o que está acontecendo nos EUA. Por que estão morrendo muito mais negros lá do que brancos? Porque os negros são mais pobres. E eles evitam ir para o hospital porque eles sabem que isso pode ser a falência da família inteira, porque não tem SUS. Você vai ter que pagar pelo menos uma parte do atendimento que ele vai receber. E ele no fim diz bom, eu vou morrer no hospital e deixar minha família endividada? Então ele segura, só vai em última consequência, como último recurso.

O SUS, na verdade, é um sistema perfeito. O problema qual foi, desde sempre? A falta de recursos. O governo federal vem há anos diminuindo sua participação no SUS. Teoricamente teria que cobrir 50% dos gastos do SUS, os municípios 25% e o Estado outros 25%. O governo federal vem diminuindo e está dando agora cerca de 44%. E os municípios, porque o prefeito está em contato com outros prefeitos, estão elevando o investimento no SUS e não têm tantos recursos. Mantivemos o SUS com problema de baixo financiamento e má gestão.

Por que o Brasil chegou nessa situação? Nos últimos dez anos, nós tivemos 13 ministros da Saúde. A média de permanência no cargo foi de dez meses, porque o Ministério da Saúde foi usado como troca política, o partido tal, para apoiar o governo, quer o Ministério da Saúde, dá para ele. O que você faz em dez meses em um país desse tamanho? O ministério tem um corpo técnico muito bom, com gente preparada que é o que tem segurado nessa questão política toda. Agora temos que nos organizar muito depressa e isso é problema.

BBC News Brasil – O senhor tem algum cuidado com a sua saúde mental? Alguma rotina nesse sentido?

Varella – Olha, para meditação não tenho essa sabedoria (risos). Porque se eu parar e ficar meditando eu só vou pensar nos problemas, onde está agora, estou preocupado com o Amapá, lá não tem estrutura, não tem UTI. Aí não dá certo para mim não. O que eu tento fazer é estudar, acompanhar bem o que está acontecendo.

Pela primeira vez na vida, acho que eu parei de estudar oncologia, que é minha especialidade, e estou estudando só a epidemia. Eu às vezes leio alguma coisinha de oncologia, mas não consigo manter a atenção por muito tempo. Eu procuro ler bastante, vejo tudo o que está sendo publicado nas revistas internacionais, que agora abriram, você não precisa mais ser assinante da revista em tudo o que se refere ao coronavírus.

E eu procuro me manter calmo em relação a isso, escrever um pouco nos intervalos. E agir, da forma que eu consigo interferir, isolado desse jeito.

BBC News Brasil – O senhor acha que com esse problema evidenciado na quarentena, quando a pandemia passar, o senhor acha que, do ponto de vista de sociedade vai mudar alguma coisa? Como isso vai influenciar a sociedade?

Varella – Acho que sim, acho que vamos sair dessa experiência de maneira diferente. Acho que o sofrimento é uma pressão para o aprendizado. Todos nós vamos perder amigos, muitos vão perder pessoas da família, e isso vai nos ensinar que não é possível viver como nós vivíamos até aqui.

Você vê, anos atrás, nós decidimos sediar a Copa do Mundo e a Olimpíada no Brasil. Bonito, né. Daí construímos esses elefantes brancos que hoje são um problema para os governos estaduais, que os mantêm com dificuldade. Na época a gente dizia pô, mas esse dinheiro tem que ir para saúde, educação, não tem sentido fazer estádios. E o que eles diziam? Que nós éramos parte da elite, que queria negar aos pobres as alegrias do futebol. Muito bom. Agora estamos pegando esses estádios e transformando em quê? Em hospitais.

Essa irresponsabilidade social que nós temos tido no decorrer de tantos anos está nos levando a uma situação muito difícil agora, e isso vai deixar um aprendizado. Primeiro: o SUS nunca mais vai ser o mesmo, porque nós agora estamos conscientes da importância dele. Há quanto tempo a gente escreve e fala que o SUS é fundamental. Eu sempre cito uma frase do Gonzalo Vecina Neto (ex-presidente da Anvisa), que é um sanitarista muito respeitado por todos nós, que é; sem o SUS, é o caos. Imagina agora o que seria se não tivéssemos o SUS?

Não pode ser relegado a terceiro, quarto plano nas preocupações governamentais. Ele tem que ter prioridade. A saúde tem que ter prioridade porque nós não vamos conseguir construir um país civilizado com esse desnível de acesso, onde alguns têm acesso à melhor tecnologia, aos melhores médicos, aos melhores hospitais, e outros ficam relegados ao que é possível dar para eles. E o que é possível dar para eles não é grande coisa, porque o investimento é pequeno e a gestão é precária. Eu acho que vamos sair disso diferentes.

Trechos da entrevista à BBC/Brasil

Ilustração do site Omorungaba

Equipes de saúde da família vão visitar idosos em asilos

A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, anunciou nesta quinta-feira (30) que equipes de saúde da família vão visitar, até o final de julho, instituições de acolhimento de idosos de todo o país. O objetivo é atender cerca de 78,2 mil idosos que vivem nesses locais, popularmente também chamados de asilos.

A ação faz parte do Plano Nacional de Contingência para o Cuidado às Pessoas Idosas em Situação de Extrema Vulnerabilidade Social, parceria do Ministério da Saúde coma a pasta da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

“Não era norma o programa saúde da família visitar lar de idosos. A priorização das instituições de longa permanência de idosos (ILPI) no Programa Saúde da Família é uma novidade que deixamos como um legado”, disse a ministra durante coletiva de imprensa, no Palácio do Planalto, para atualizar medidas do governo federal no enfrentamento da pandemia do novo coronavírus.

Segundo a ministra, cerca de 6 mil equipamentos de proteção individual (EPI) serão distribuídos para 78,2 mil pessoas idosas e 31,7 mil profissionais em mais de 6,2 mil instituições de acolhimento dessa população no país. Ela também enumerou as ações do governo voltada aos idosos, que somam R$ 3,96 bilhões ao longo do ano, incluindo a garantia do Benefício de Prestação Continuada (BPC) a 155,2 mil idosos que não se inscreveram no Cadastro Único e a aplicação da vacina contra a gripe em mais de 30 milhões de pessoas desse público-alvo.

Testes rápidos para a covid-19 também estão sendo aplicados prioritariamente em mais de 2,3 milhões de pessoas idosas sintomáticas e ao acolhimento de vítimas de violação de direitos humanos em casos decorrentes do isolamento social denunciadas ao Disque 100. Damares Alves ainda anunciou mais um serviço do canal de denúncia, que será exclusivo para idosos.

EBC

Ministério da Saúde aponta risco potencial de 11.732 idosos infectados em ILPIs

Um documento do Ministério da Saúde aponta risco potencial de que o novo coronavírus atinja 11.732 idosos que vivem em instituições de longa permanência, como são chamados hoje os antigos asilos.

O cálculo considera a existência de 78.216 pessoas com mais de 60 anos vivendo em instituições vinculadas ao SUAS -sistema de assistência social que inclui as entidades que recebem verbas públicas- e uma estimativa de 15% de incidência da doença.

A taxa tem referência em parâmetros de casos de síndrome gripal, segundo técnicos da pasta.

O documento estima ainda que, entre os casos, ao menos 2.346 podem precisar de internação hospitalar. Desses, metade, de assistência em UTI por até 21 dias. O texto não cita índice de letalidade.

A estimativa faz parte do “Plano nacional de contingência para o cuidado às pessoas idosas em situação de extrema vulnerabilidade social”, elaborado pela secretaria de atenção primária em saúde do ministério e publicado em sistema interno da pasta na sexta-feira (24).

Especialistas ouvidos pela reportagem, porém, dizem que os números estão subestimados e tendem a ser maiores.

“Uma instituição de longa permanência de idosos é um ambiente em que, ocorrendo uma contaminação de alguns residentes, pode ser catastrófico, com mortes de muitos idosos. Isso pela característica dos idosos que estão lá. São idosos mais dependentes, com perda de autonomia, comorbidades e muitos com mais de 80 anos. Vimos casos de instituições com 50% ou mais de óbitos [em outros países]”, diz Carlos André Uehara, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia.

O plano de contingência indica medidas de prevenção que devem ser adotadas pelas instituições e pela rede de saúde, na tentativa de tentar reduzir a transmissão e identificar possíveis casos. Também traz ações que devem ser adotadas para assistência diante de suspeita da doença.

Entre as medidas está fornecer 5 milhões de equipamentos de proteção individual a idosos e cuidadores, aumentar o uso nesses locais de sistema telefônico do Telesus para análise de sintomas e fazer um rastreamento ativo de casos, com envio de lista de idosos a equipes de Saúde da Família.

Uehara lembra que as instituições citadas pelo ministério são apenas uma parte das existentes no país.
Dados de estudos apontam que, somadas instituições particulares, públicas, filantrópicas e outras clandestinas, o número de idosos em instituições pode chegar a 300 mil.

A presença de pessoas com idade mais avançada, o compartilhamento de ambientes e a dependência de apoio para realizar atividades colocam hoje esse grupo entre os mais vulneráveis ao vírus, aponta o documento do Ministério da Saúde.

Atualmente, sete em cada dez mortes pela Covid-19 no país ocorrem em pessoas com mais de 60 anos.
“É essencial perceber que as pessoas idosas institucionalizadas apresentam tanto o risco individual, decorrente da maior agressividade da Covid-19 nesse grupo, quanto a exposição consequente do caráter asilar das instituições de longa permanência, nas quais se lidam frequentemente com espaços coletivos, aglomerações no uso de áreas comuns, com possibilidade de contágio de grande número de pessoas”, aponta o documento do ministério.

O plano prevê ainda que residentes que apresentarem sintomas de síndrome gripal sejam imediatamente isolados do restante do grupo e submetidos a exames.

Caso não haja condições de isolamento e assistência dentro da instituição, o documento recomenda que seja feita uma internação social com uso de leitos em hospitais de pequeno porte e de retaguarda.

Pacientes também devem ser submetidos a testes mesmo em quadros leves. Inicialmente, o documento indica que seja privilegiada a oferta de testes do tipo PCR, considerados mais precisos e indicados, em geral, após o terceiro dia de sintomas.

Caso não haja disponibilidade do teste em até sete dias, a recomendação é pelo uso de testes rápidos, que usam amostras de sangue, modelo tido como mais limitado que o anterior.

O documento sugere ainda que o valor de diárias de internação de idosos tenha aumento de 100%, em uma tentativa de forçar o aumento do cuidado para esse grupo. A medida, porém, depende de decisão de outras equipes da pasta.

Questionado oficialmente pela reportagem sobre a implementação do plano e o número de casos de coronavírus já identificado em asilos, o Ministério da Saúde não respondeu.

Em nota, disse apenas que o assunto está sendo coordenado pelo Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, que deve ser porta-voz de um plano de ações para esses locais.

A ideia do governo é fazer um plano conjunto, o qual incluiria ações de saúde e outras medidas, como doação de cestas básicas.

Recentemente, o país começou a registrar mortes de idosos em asilos por coronavírus. Em um deles, em Piracicaba, no interior de São Paulo, foram sete mortes em seis dias. A situação motivou uma investigação do Ministério Público sobre as condições do local.

Em Campinas, também no interior paulista, um asilo clandestino foi interditado após um idoso morrer com a doença.

Antes da elaboração do plano, o ministério enviou a estados e municípios duas notas técnicas sobre a prevenção de casos nesses locais. A primeira ocorreu em março, e a segunda, há duas semanas.
Uma delas recomenda que haja monitoramento diário dos idosos para analisar possíveis sinais de febre e outros sintomas. Recomenda ainda que haja avaliação durante a admissão de novos residentes, evitando convívio nos primeiros 14 dias.

Outras ações de prevenção também são recomendadas, como limitar a presença em áreas comuns, restringir o uso de objetos compartilhados e servir as refeições em horários escalonados ou preferencialmente nos quartos.
As notas também orientam que visitas de familiares sejam suspensas, com contato mantido por telefone e vídeo, e que idosos sejam orientados a não sair das instituições neste período.

Em caso de sintomas, a recomendação é que o idoso seja mantido em quarto privativo ou encaminhado a internação social. Em casos graves, deve ir a hospital de referência.

O Tempo

“Iguarias” do Portal do Envelhecimento e Longeviver

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