Elas não gostam de ser chamadas pessoas idosas, menos ainda classificadas como pessoas da terceira idade. Preferem se apresentar como “velhas”. Mulheres que passaram dos 55 anos, algumas mais velhas que outras, e estão passando por “uma das etapas mais longas” da vida, embora a sociedade prefira cultuar a juventude. Decidiram, portanto, que havia chegado a hora de ressignificar o termo, acrescentar uma conotação de amor e começar a exigir as políticas públicas necessárias à qualidade de vida de uma geração considerada “filha das mães dos lenços brancos e mãe das filhas dos lenços verdes”. Hoje, seus lenços são prateados.  Chegou a hora da “Revolução das Mulheres Idosas”.

Para quem não sabe, o lenço branco foi símbolo da luta das Mães e as Avós [da Praça de Maio], mulheres incansáveis que lutam por encontrar centenas de crianças desaparecidas, raptadas pelos algozes na época da ditadura na Argentina. Mães que hoje se tornaram as Avós, reclamam por justiça, pelas histórias de muitas vidas, por seus netos de volta às suas famílias. Já o lenço verde, que pode ser usado no pescoço, cabeça e punho, consolidou-se como símbolo oficial da luta pela descriminalização do aborto e pelo movimento #NiUnaMenos. E agora surge outro lenço, o de cor prateada, como símbolo da luta das mulheres velhas que reivindicam solidariedade social, feminismo e ambientalismo. Ou seja, lutam pela dignidade da vida.

Quem atirou a primeira pedra foi Gabriela Cerruti, jornalista e deputada da Frente de Todos, por meio de um vídeo publicado na rede social do Instagram, onde reflete sobre a própria velhice e a importância de pensar em políticas de bem-estar para quem passou dos 60 anos. Em um dia, as imagens que mostravam ela falando em frente ao espelho, enquanto removia a maquiagem, obtiveram cem mil visualizações. Mas a coisa não parou aí, em várias cidades do país grupos de mulheres começaram a se reunir, a conversar e a se reconhecer como um coletivo.

Em Rosário, “as velhas” já realizaram duas assembleias, das quais mais de 60 mulheres participaram, e formaram comissões de trabalho a serem apresentadas publicamente. Há uma comissão de “velhas da imprensa”; outra de “arte”, responsável por fazer lenços e bandeiras, e até uma de música. E elas também compraram glitter e esmalte prateado.

Para Silvia Hallam, Cerruti identificou uma necessidade latente. Silvia, turca, tem 56 anos, trabalha na área da Infância da província e não se vê cuidando de netos no seu futuro. O convite para se juntar às velhas veio quase por acaso através do Facebook. No começo, segundo ela, parecia ser mais um grupo, mas os debates transcenderam doenças e reclamações.

As “velhas” se definem como um grupo identificado com as lutas feministas, contra a violência, em favor da igualdade, educação sexual e aborto legal. Mas desde o lugar de velhas elas reconhecem que têm necessidades específicas, como a questão da habitação, saúde, pobreza, solidão e a necessidade de que a vida seja digna até o último momento, diz Alicia Ferrero, 75 anos, psicóloga aposentada, peronista e ativista de direitos humanos.

“O mais interessante sobre o movimento de mulheres é que é um movimento horizontal e transversal, que muda a lógica dos partidos políticos, com sua hierarquia patriarcal, vertical e misógina, para uma forma de participação mais democrática, onde a preocupação não é o poder pelo poder em si, mas por sua possibilidade transformadora”, acrescenta Raquel Kreichman, 74 anos, formada em Letras, especialista em semiótica e análise de discurso e militante do primeiro socialismo.

Militância, filhas, velhice

Alicia e Raquel eram estudantes universitários durante as noites que se seguiram ao golpe de Ongania. Silvia tinha doze anos em 24 de março de 1976. “Somos a geração que leu Simone de Beauvoir, a pílula anticoncepcional, a minissaia. Não queremos ser as velhas que foram nossas mães. Não podemos”, pois elas se identificam como “filhas das mães dos lenços brancos e mães das crianças com os lenços verdes”.

Elas consideram que fazem parte de uma nova forma de velhice. “Não se pode generalizar sobre o que é ser velha, porque nem todas viverão da mesma maneira. Depende do nível socioeconômico e de como cada mulher é percebida. Mas existem medos que podem ser comuns, como o de ficar sozinha ou não ter dignidade em seu último momento da vida ”, explicam.

Portanto, elas começaram a se reconhecer, a pensar e a se encontrar. Para reivindicar políticas para elas, mulheres de classe média com acesso a capital simbólico e interesses políticos, e também para outras mulheres que não têm esse privilégio.

Vamos nos juntar a elas?

(*) Carina Bazzoni – repórter do jornal argentino La Capital. Reportagem publicada no dia 6 de março.Tradução livre e adaptada de Beltrina Côrte do Portal do Envelhecimento.


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